8.29.2016

Nosso instinto de sobrevivência

Até onde nos leva o nosso instinto de sobrevivência? Será ele nossa motivação inconsciente para seguirmos lutando contra as adversidades e desafios? O que controla esse instinto em nós? Dois documentários que me fizeram refletir sobre isso e chegar a algumas conclusões. 



No documentário “The Last Lions”(Os Últimos Leões), uma leoa que se vê sozinha com seus três filhotes, após a morte do seu companheiro, por conta de briga por território, saí em busca de um lugar para criar a prole. Esse filme retrata a verdadeira realidade dos leões em seu habitat natural, nos dias atuais. Com seus territórios sendo invadidos pela civilização humana, pouco ainda resta que sirva de morada para os felinos. Isso provoca uma luta por território mais acirrada do que acontecia há muito.
Sozinha, a leoa com seus três filhotes chegam a um rio, o qual precisam atravessar para chegar a um pedaço de terra do outro lado, ainda sem dono. um dos filhotes, o mais frágil, não conseguiu atravessar e foi pego pelos crocodilos. Atrás dela e sua família, está o bando de leoas, cujo macho líder havia conquistado o território que estava ficando para trás.
Os três conseguem atravessar o rio, enfestado de crocodilos, e chegam às margens do outro lado. Conseguem sobreviver um pouco. Eram muitos os perigos. Uma manada de búfalos é algo perigoso para uma leoa sozinha. Ela, atordoada, tinha de procurar alimento para os filhotes e para si e, ao mesmo tempo, protegê-los. Deixava-os sempre no mesmo lugar, escondidos, e ia a procura de comida. Do outro lado do rio, estavam as outras leoas querendo continuar a briga. E os búfalos correndo de um lado para outro. Foi numa dessas corridas que eles alcançaram os filhotes e passaram por cima da filhote fêmea. A leoa, ao retornar, da caça sem sucesso não os encontrou e saiu em busca deles. Achou a filhote machucada. Tentou carregá-la de toda forma, não conseguiu. Então, a abandonou. Foi uma das cenas mais chocantes que vi em documentários. A filhote, sem entender, nem conseguir andar(havia tido suas patas traseiras esmagadas pela passagem dos búfalos), ficava como que miando desesperada enquanto via sua mãe se afastar. O olhar da leoa, era um olhar sem brilho. Em pouco tempo havia perdido seu macho, seus filhos, seu território, tudo.
Mais à frente conseguiu encontrar o outro filhote a salvo. Cuidou dele. Aprendeu a entrar na água e lutar com os búfalos dentro dela, pois lá, eles eram mais vulneráveis. Isso fez as outras leoas a observarem atentas de longe. Quando essas conseguiram atravessar o rio, ainda tentaram brigar com ela. Mas, essa as afastou. No final, elas se juntaram à nova líder e respeitaram o seu filhote. Como uma equipe, entenderam que, se lutassem juntas, conseguiriam alimento para todas. A leoa, agora líder, havia se superado e tinha seu próprio território.
Em outro documentário, “Alive”(Vivos), baseado no livro “The Story of the Andes Suvirvors”(A história dos sobreviventes dos Andes). Narra a história de um time uruguaio de rugbi(esporte) que decide fazer uma viagem a Santiago, no Chile. Isso aconteceu na década de 90. O avião em que estavam viajando, caiu nos Andes chilenos. Poucos sobreviveram. Depois de 10 dias passando fome, decidiram praticar a antropofagia, com os corpos dos que haviam morrido.
Um dos sobreviventes, Nando Parrado, perdeu sua mãe e sua irmã nesse voo. A motivação de reencontrar seu pai e sua outra irmã, o fez se tornar um líder. Ele convenceu dois amigos que foram com ele tentar atravessar os Andes a pé. Levaram água, que conseguiam juntar da neve derretida e pedaços de carne. Um deles voltou. Ele e mais um seguiram viagem. Nunca haviam escalado montanhas, muito menos com neve. Mas, conseguiram chegar próximos à margem de um rio, no qual um andarilho a cavalo os avistou, do outro lado. Conseguiu se comunicar com eles jogando-lhes uma pedra amarrada ao um barbante com pedaço de papel e lápis, pois o barulho do vento e da correnteza não permitia que entendessem os gritos uns dos outros. Foi assim que conseguiram sobreviver e voltaram para resgatar os amigos nos restos do avião.
Esses dois documentários me fizeram refletir sobre o instinto de sobrevivência animal. De um lado, uma leoa que abandona seu filhote, pois não sabia o que fazer e não podia fazer mais nada, tinha de lutar por sua sobrevivência. De outro, um grupo de humanos que precisa comer carne humana, em meio ao desespero da fome. São atos extremos de sobrevivência. Mas, vistos bem de perto, com olhar desprovido de julgamento, são bem compreensíveis. Pois, a partir do que somos, nosso instinto de sobrevivência é um dos mais fortes. Por mais que se tenha dificuldades. Por mais que o mundo não seja um lugar tão fácil. Por mais que haja tantos problemas e egoísmo, há a necessidade sagrada de sobreviver. Em meio a uma situação de extremo perigo, o ser humano é capaz até de matar outro ser, em legítima defesa!
Será que esse instinto é o que coordena todas as nossas ações, no dia a dia: trabalhar, estudar, cuidar-se, ir ao médico, tomar banho, alimentar-se, etc? Talvez, a empatia nos ajude a equilibrar esse jogo. A olhar para o outro e tentar colocar-se em seu lugar, sentir, ou ao menos entender o que sente, nós nos impomos um limite. Entender que somos todos iguais, ao menos por dentro. Cada um com seu próprio valor e direito de respirar e viver. Na verdade, apesar do nosso instinto, não podemos, ou devemos, fazer qualquer coisa por sobrevivência se isso for prejudicar alguém deliberadamente. Precisamos todos sobreviver sim, mas com a consciência de que cada um precisa do seu espaço, da sua comida, do seu lazer, do seu estudo, de sua liberdade de expressão e fé. Aquele velho ditado que diz "sua liberdade termina quando começa a do outro". Aliás, nós, seres humanos racionais, muito mais do que apenas sobreviver, precisamos encontrar meios para que todos vivam plenamente. Pois, a vida é muito preciosa, senão o instinto de sobrevivência não existiria. Não acha?

Fer Perl©

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Grata por comentar e deixar um pouco de si através das palavras." Volte sempre! :-) / Thank you for commenting and leave a bit of yourself :-)