8.29.2016

Sobre I am Sam (Uma Lição de Amor)

Quando as limitações impostas por uma deficiência mental não impedem alguém de lutar por seu amor.



Há muitas teorias sobre a Inteligência, sobre o funcionamento do cérebro, sobre o que leva uma pessoa a ser considerada “normal”. Falar de comportamento levanta muitas questões étnicas, morais, políticas, etc. Há moldes que a sociedade impõe e que vão se modificando, à medida que a História e suas consequências vão acontecendo, também, aos nossos olhos. O próprio cérebro é, ainda, em muitos pontos, um mistério para a Ciência. Estereótipos e mitos caem por terra, todos os dias. Como a ideia de que só usamos parte do nosso cérebro. Na realidade, usamos 100% dele. E cada parte desse órgão tão importante interage, na forma de uma rede muito complexa, com as outras partes. É por isso que, quando alguém sofre um acidente e seu cérebro é lesionado, alguns movimentos do corpo são perdidos, outros não, por exemplo. Mas, uma coisa é sofrer uma lesão no cérebro.
Outra coisa é nascer com algum problema neurológico. Nesse caso, muitas vezes, o comprometimento mental, que vem do próprio desenvolvimento do ser no útero de sua mãe, é bem mais complexo. Note que falamos em cérebro, logo depois em mental(de mente). Existe essa dicotomia no meio científico, embora muitos não concordem com essa divisão. O cérebro seria a estrutura física, enquanto a mente, a estrutura cognitiva do indivíduo, um complemento do outro. Há até quem use a comparação de cérebro com hardware e mente com software, dos nossos familiares computadores.
No filme “Uma Lição de Vida”, o protagonista Sam Dawson, encenado por Sean Penn, é um adulto com comprometimento cognitivo. Não se deixa específico que tipo de comprometimento ele tem, porém, deixa-se perceber que ele possui idade mental muito aquém da sua idade cronológica, comportando-se, em várias situações como uma criança mesmo. Na trama, Sean Penn tem um relacionamento relâmpago com uma mulher, supostamente prostituta, que fica grávida e o abandona com sua filha(que se chamará Lucy, por conta da canção dos Beatles), nos braços, em uma parada de ônibus e, simplesmente, some. Sam, atordoado, consegue ir para casa. Uma vizinha, que sofre de síndrome do pânico e que não sai de seu apartamento, acaba o ajudando a cuidar da criança. Seus amigos, um pequeno grupo que representa sua família, todos com problemas mentais, também, o ajudam do seu jeito. O que o faz sentir-se capaz de seguir enfrentando aquele desafio é apenas o afeto que sente por sua filha. Ele se mistura a ela. Entende o que ela diz e sente. É para ela companheiro e amigo. Mas, tudo muda a partir do momento em que sua filha cresce e, já com sete anos, começa a aprender coisas que ele não conseguiu aprender.
Sam só sabe ler um livro, ou decorou, realmente, a história. E, todos os dias, ele o lê para sua filha. Quando ela aprende a ler, percebe que seu pai não sabe ler outra coisa. E toma ciência de que ele tem problemas cognitivos. Isso a faz não querer aprender mais nada. Mas, seu pai a convence. Sam, do seu jeito, estava vencendo a cada dia o desafio de criar sua filha. Até que a sociedade sentiu que era hora de intervir e, através de uma assistente social, tirou Lucy de seu convívio, entregando-a para adoção. Isso provocou em Sam um grande desespero. Ele procurou se superar no trabalho, aprendendo a usar a cafeteira, para ser promovido a fazer café e ter um salário melhor do que o que recebe por servir as mesas.
Ele foi morar em uma pequena casa próxima à que sua filha estava morando com seus pais adotivos. Quando ela descobriu, todas as noites fugia para ir dormir com seu pai. Ele a levava de volta a casa dos pais adotivos. E isso virou uma rotina. Em determinado momento do filme, a pequena Lucy revela ao seu pai que não queria ter outro pai diferente dele, pois nenhum pai ia ao parque brincar com seus filhos, como ele o fazia. Esse pensamento refletia o que Sam representava para ela. No final, os pais adotivos entenderam que Sam era capaz de criar sua filha e que ela não seria feliz ao lado deles, abdicando de sua guarda e da adoção. Depois de várias audiências no tribunal, com a ajuda voluntária de uma advogada, e tendo por testemunhas sua vizinha e seus amigos, ele consegue sua filha de volta.
Isso tudo nos leva a refletir sobre nossos verdadeiros limites. Sobre como uma motivação certa nos leva a superar nossas bordas. Que o nosso cérebro é nosso aliado, mas que ele trabalha em consonância com nosso coração, nossos afetos. Ambos nos fazem quem somos. Nossa atitudes, nossa razão, nossos pontos de vista, nosso olhar em relação ao mundo, ao outro, a nós mesmos, nosso comportamento, tudo parte de dentro para fora de nós.
Apesar de a Ciência ainda não ter respostas para tudo, ela já conseguiu compreender que existe algo além, que nossa afetividade, que nossa essência, que nossa alma(?) são o link que falta para o que está obscuro e o que está à nossa frente, à distância de uma mão. Se muitas respostas podem ser dadas através do funcionamento dos nossos hormônios, dos nossos neurônios com suas sinapses nervosas, das trocas feitas entre as nossas células e o meio onde se encontram. Também, muitas podem ser dadas através do que sentimos e almejamos para nós. Da consciência sagrada que existe em cada ser de que viver não é apenas respirar, ou alimentar-se, mas é sentir o amor e amar.
E o amor acontece através do olhar de respeito, da confiança e da aceitação dos limites por parte de todos e de si mesmo. Nós nos surpreendemos quando não nos usamos como modelos humanos pré-definidos em nossas comparações rotineiras. Pois, apesar de todos possuirmos um cérebro e uma mente que funcionam, aparentemente de forma igual em todos, cada ser é singular e tem sua própria história e valor.

Fer Perl©

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