8.29.2016

Tempo borracha e tempo trem


O tempo funciona como uma borracha gigante vindo atrás de nós, apagando os personagens principais da nossa história. Mas, ele também funciona como um trem. Aprender a entrar nele pode fazer a grande diferença.
  A lembrança do sorriso nada obtuso do meu avô e dos cabelos prateados da minha avó de olhos azuis lindos e brilhantes me fizeram fazer esta pequena e simples reflexão. Sobre o quanto na nossa história, de alguma forma, vão se "apagando" os personagens principais. Um a um, até chegar a nossa vez. Dei-me conta de que a casa dos meus avós permaneceu lá, eles não. Restaram as fotos, as imagens, as lembranças.
(Que descansem em paz, em Deus)
O fato é que vamos construindo nossa história e é o tempo que funciona como uma borracha gigante, vindo atrás de nós, bem devagar. O material, até certo ponto, permanece o mesmo. Como aquelas estações de trem antigas que já presenciaram tantas histórias de idas e vindas, de despedidas e reencontros. Tenho para mim que lugares assim são impregnados de sentimentos em suas paredes, teto e chão. Como na casa dos nossos avós. Quando o almoço em família significava uma explosão de afeto, um recorte eterno no tempo corrido de cada um.
Como lidar com a borracha do tempo? Ninguém pode, ao certo, esquivar-se dela. Olhar para frente já é uma condição até mesmo anatômica do nosso corpo. Nossos olhos estão posicionados estrategicamente, para frente. Podemos até parar e olhar para trás, vez ou outra. Mas, se continuamos assim, acabamos tropeçando e caindo. Não é questão de não observar o caminho. De cumprimentar pessoas. Muito menos de ir esquecendo o que passou. Acontece que tudo muda aos nossos olhos, dentro e fora de nós. Basta um olhar mais demorado para perceber isso.
As brincadeiras de infância no meio da rua. Onde estarão todos aquelas crianças? Terão filhos e permitirão que eles brinquem também? Qual é a face da saudade? "São várias", você poderá me responder. Para mim, saudade tem cheiro. Ela tem forma, cor e provoca a sensação de tocar aquele recorte de tempo que ficou guardado como uma lembrança boa. Como a forma do chapéu do meu avô, sem o qual ele não saia de casa de forma alguma. Melancolia? Não. Consciência de que as coisas se modificam e, nem sempre, acompanhamos suas mudanças. Ficamos, muitas vezes, parados esperando que tudo volte ao que era antes. Mas, não é possível. O tempo contínuo, feito de fragmentos unidos de forma ininterrupta cuida para que a história siga em frente. E você não pode ficar parado, esperando que ele pare. Tem de entrar em acordo com ele.
A cada dia, os livros de História ficam mais grossos(com mais páginas). E, o que era futuro em filmes, agora antigos, já está ultrapassado no nosso presente. E sempre será assim. Um movimentar dinâmico de vida.
E "eu?", você poderá dizer. Bem, cada um tem seu lugar. Você contribui para que a História seja o que é hoje e o que ela será. Mesmo que não acredite que isso seja possível. Por que basta um mover das asas de uma borboleta para que aconteça um tufão do outro lado do mundo, o tão conhecido Efeito Borboleta. Como na Física de Newton :"Toda ação provoca uma reação de igual ou maior intensidade, mesma direção e em sentido contrário". Ou seja, decidimos e vivemos as consequências do que depende de nós.E assim, nessa dinâmica maravilhosa da vida, vamos escrevendo nossa história, única e singular. Olhando as fotografias que vão se apagando com o tempo. Participando delas. Tendo o que contar. Guardando memórias, cheiros e sentimentos. Sólidos indícios de uma existência que até parece ser efêmera, mas não é.Rubem Alves escreveu a seguinte frase: "Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será". Acho que ele descobriu um segredo importante da vida. Pois, a partir do momento em que percebemos que tempo não para, aprendemos a nos introduzir em seu trem e tomamos nosso lugar com ele. Não contra ele, mas o tornamos, de certa forma, nosso aliado.
Não falando de botox, cirurgias, etc. Isso são especificidades muito da superfície. Cuidar de dentro e de fora, da saúde do corpo, da mente e da alma. Viver cada instante como único, mesmo que isso pareça clichê.
Por que, quando se é criança, não se entende a dimensão disso tudo. Para nós, nossos avós sempre estarão lá a nos esperar nos domingos em família. Só que um dia, isso acaba. E começamos a perceber que fazemos parte de algo bem maior que aquela cozinha tão simples, mas tão inesquecivelmente concreta, com seus personagens eternos dentro da nossa história real de vida.

Fer Perl©

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